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Postado por Deoclides Guimarães Filho - - Comente aqui!
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Alvoroço na rua. Alguém corre casa adentro, pega o telefone e disca:
- Pronto
- Alô. Anota aí, depressa, O papagaio esta preso no poste.
- Minha senhora, deve ser algum engano, aqui é o setor de informações do Instituto Previdenciário.
Desocupa a linha e disca novamente:
- Centrais Elétricas bom dia.
- Aqui é a rua dos Anzóis, sessen e seis. Por favor, mande alguém depressa, o Papagaio está preso no poste...
- Dona Rua, explique-se melhor.
- Meu nome não é Rua e não sou dona. O coitado do papagaio está desesperado, ele subiu no poste e ficou lá em cima.
- O que podemos fazer, senhorita? Seu papagaio não sabe voar?
- Pelo amor de Deus. Papagaio é só o nome dele. Mande alguém para salvar meu macaquinho
- Como foi isto?
- Ele fugiu do alpendre e subiu no poste com corda e tudo. Agora está lá gritando.
- Por favor, repita o endereço.
- Rua...
- Aguarde.
Próximo ao local, um ônibus pára e pessoas descem veículo afora. O motor indica reinício da viagem, uma voz soa:
- Vai cair mais um.
- Caiu vovô.
A gozação vem de algumas moças que, em estado de graça, talvez por culpa do macaco, deixam aparecer os sintomas. O brasileiro vovô envermelh-se de qualauer coisa. Fixa encaradamente o olhar nelas, olha para o céu, tira o chapéu, volta à sua cor normal, agradece, coisa que ninguém entende, vai embora.
Rapidíssimo encostam o carro verde e branco, o rapaz também motorista, salta e vem dizendo:
- Isto é sério senhorese e senhoras, não deixam o bicho ver nenhuma banana.
Para cada lado da rua segue uma pesoa com o recado:
- É proibido passar bananas.
Papagaio continua desnorteado, já subiu o máximo, está no tôpo, bem distante das pessoas e parece subir mais, mas o poste é da altura de um só. A multidão se apresenta ao mesmo tempo ansiosa e alegre. O funcionário começa e vai subindo devagar.
- Cuidado com as bananas. Diz algum cidadão humorado.
- Uaaau... Uiii. Miserável. Ele me mordeu.
- Papagaio querido, ele quer te salvar. O moço ele é bom, ele...
Cala-se a moça, lembrando que Papagaio não a entende. De volta ao chão, com o dedo ensanguentado, o rapaz chega próximo à dona do bicho:
- Ele é vacinado?
- Não sei,eu trouxe ele anteontem.
- Então... Sinto muito, e... dane-se com seu macaco.
- O senhor não pode deixar ele lá, eu quero meu Papagaio, eu quero!
- Calma, eu dou um jeito - tranquiliza outro rapaz, que segue acrescentando:
- Macacos não mordam, mas banana é banana.
- Banana não, banana não.
- Ora, o instinto faz o bicho ficar mais forte. Quem tem uma bana? Só uma, gente!
Não se sabe como, mas no quarteirão onde as bananas eram proibidas, elas vão aprarecendo:
- Verde serve?
- Não sei. Pergunte para ele - e aponta mais para o poste do que para Papagaio que, à distância, permanece teimando em utrapassar o fim do poste.
- Ele gosta é assada.
- Fogo feito, banana nele.
O cheiro levado pelo vento faz do macaco um doido. O bicho, agitado, ensaia dexcer, mas, enraivecido, permanece retido pela corda.
- Asse a caturra.
Fito assim, o bicho não resiste e salta, mas não chega ao chão.
- Assassinos. Assassinos.
- Mas, moça, nós so assamos babanas...
- olha.
Estatualizada, chorando, a dona sem macaco aponta para Papagaio que, pendurado ao poste pela corda, ainda balança, balança... e cai entre a multidão. Há quem ache vergonhoso correr por isto, mas corre. Ninguém fica, nem os gritos das crianças e mulheres, nem as risadas dos desajeitados, nem as bananas que desaparecem, possivelmente levadas pelo Papagaio que também correu.

Deoclides Guimarães filho

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